Infelizmente, sou suspeita para falar sobre o tema. Pessoalmente, é um grande prazer para mim entrar em uma livraria – em seu ambiente físico – e olhar os livros. Passar a mão nas capas, sentir a textura, ler as sinopses, conhecer o autor, dar aquela folheada básica. Comprando ou não, é bom “namorar” os livros. Do mesmo modo, também cultivo esse sentimento por jornais e revistas. Não há item de decoração mais “gostoso” numa sala do que um jornal em cima da mesa.
No entanto, atualmente, os jornais impressos estão diminuindo gradativamente suas tiragens. A que se deve este fato? O jornalista Ricardo Noblat, que em 2004 criou o “Blog do Noblat”, em seu livro “A arte de fazer um jornal diário”, nos traz o seguinte dado: entre março de 2001 e março de 2002, os 15 maiores jornais brasileiros, responsáveis por 74% do volume total de exemplares vendidos no país, diminuíram sua circulação em 12%, deixando de vender exatos 346.376 exemplares.
Noblat aponta diferentes explicações para este fenômeno. Ele afirma que jornalistas e donos de grandes jornais sabem cada vez menos o que seus públicos querem de fato ler. Entre as queixas mais comuns dos leitores estão o cardápio de assuntos oferecido pelos jornais, os quais acredita o autor, estão mais de acordo com os jornalistas do que com as pessoas que lêem o jornal. Existem também reclamações a respeito da aparência dos jornais, relativas a problemas com tintas que mancham as mãos, páginas que se soltam quando manipuladas e, ainda, insatisfações com o formato e o tamanho dos jornais.
Outro fator determinante para a diminuição da circulação de jornais impressos é o uso da Internet como meio de obtenção de informações e entretenimento. A Associação Americana de Jornais entrevistou, nos dois primeiros meses de 2000, 4003 adultos. Setenta e cinco por cento dos entrevistados de 18 a 24 anos disseram que a Internet “mexe” com a imaginação deles, e somente 45% disseram o mesmo em relação a jornais. A pesquisa revelou que a utilização da internet como fonte de notícias aumentou, nos Estados Unidos, em 127% entre 1997 e 2000. No mesmo período, o consumo de impressos diminuiu quase 12%.
Atualmente, passados onze anos desde a pesquisa citada por Noblat, é de se esperar que o quadro tenha apenas aumentado em relação aos resultados obtidos, ou seja, a situação vai ficando cada vez “pior” para os jornais impressos, ao passo que a procura de notícias utilizando a Web como ferramenta aumenta significamente a cada dia.
Sem dúvida, há muitas questões a serem discutidas a respeito do tema. A utilização e preservação de jornais impressos perpassam por diversas esferas, entre elas a econômica, a ambiental, cultural e até mesmo a filosófica. Os seres humanos, em geral, são avessos a mudanças. Estão sempre buscando estabilidade, seja ela financeira familiar ou afetiva, e, apesar destas serem importantes na manutenção da felicidade, algumas vezes a busca incessante por essa imobilidade encobre o lado bom da mudança.
Confesso que, como jornalista, gosto do papel em si. Mas papel custa dinheiro, custa árvores, custa a defesa do planeta onde vivemos. Antes de ser jornalista, sou humana, consciente o bastante para saber que abrir mão do simples prazer de folhear um jornal pode contribuir para o desenvolvimento sustentável desta grande casa da qual todos fazemos parte. Para finalizar, gostaria de descrever algumas palavras que ouvi e que explicam bem o sentimento de todo jornalista em relação à esta questão: “Não temos que ficar preocupados se vai haver jornal impresso ou não. Não somos vendedores de jornal, somos produtores de conteúdo.”
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