Enquanto você está nas cochias, esperando o sinal de ok, a sensação é diferente. É um tipo de nervosismo saudável. Você entra no palco, ainda com as luzes apagadas, e enquanto aguarda, no escuro, a música começar, a sua consciência está totalmente concentrada no linóleo, um tipo de tapete colocado em cima do piso de madeira, para evitar escorregões. A música inicia e toda aquela consciência flui para o seu corpo, e os movimentos começam. De repente, você não é mais nada, nem consciência, nem movimentos. Você perde a noção do tempo, de corpo, do mundo. O seu corpo faz tudo por si só. De uma forma que você talvez não ousasse fazer, se estivesse com a mente a mil, pensando na maneira, no jeito, no detalhe de como fazer.
Você só se dá conta do tempo cronológico, do corpo, da platéia, do mundo ao seu redor, quando a música para de tocar. Você conta até três e sai discretamente do palco, enquanto os dançarinos da próxima coreografia já estão entrando. Você só se dá conta do que fez ou deixou de fazer quando está nos camarins, que ficam no subsolo do teatro.
A sensação, no entanto, é impagável, inefável, maravilhosamente boa. Um tipo de trabalho que te proporciona prazer do início ao fim. É uma meditação consciente, uma abstração do momento. Um pulo no êxtase, um gostinho da eternidade.
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Quando eu dançava numa companhia, há uns dois anos atrás, a sensação de me apresentar era exatamente essa. Você tinha três minutos para mostrar o que fora ensaiado em nove meses. E eram os três melhores minutos. Hoje pela manhã, tive vinte melhores minutos. O rádio me deu a mesma alegria, a mesma satisfação, o mesmo entusiasmo. Impossível não comparar as duas coisas. A dança sempre foi uma atividade que amei, justamente por toda essa loucura consciente que acontecia no palco. Hoje na rádio a sensação foi muito parecida. Quero bis!
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